Caminhos e caminhantes para uma vida mais plena
A ECOFILOSOFIA PRÁTICA COMO UM PROJETO INTELECTUAL COLETIVO
A proposta daquilo que se entende como uma prática ecofilosófica visa concretizar ações e reflexões que proporcionem uma consciência racional e espiritual mais unificada e uma ética conceitualmente sólida em torno da vida em sociedade (entre espécies humanas e não humanas) e de nossa relação com os atributos naturais do planeta (uma perspectiva de mais respeito, integração e interação racional). Essas ações e reflexões empreendidas não se instalam como novidades no plano histórico da construção das sociedades e das características individuais. São, portanto, visões já pensadas e propostas no processo civilizatório, e que se referem à reflexão sistemática de conceitos básicos ligados à realização do bem, de maior justiça social e igualdade, e visando uma melhor forma de vida planetária.
Os caminhos de atuação são propostos visando um “projeto de visão de mundo” por mais difícil e abstrato que possa parecer um ideal nesse nível. Dessa forma, aquilo que poderíamos chamar de uma perspectiva interpretativa visa dar amparo a um modo de vida e uma ação catalisadora buscando resultados sólidos e duradouros, no plano de uma nova ética socioambiental, abrigando a concepção individual e coletiva.
Tratando-se de um projeto intelectual é necessário reconhecer que se ampara na racionalidade, não prescinde de bases racionais, das conquistas da ciência, da arte e da filosofia, por exemplo. Entende-se, portanto, factível o estabelecimento de uma ecofilosofia prática, porquanto possível o aperfeiçoamento de uma construção conceitual teórica e empírica que visa concretizar uma possível sequência metodologia. Essa linha hermenêutica procura repensar o papel do ser humano perante os outros humanos, diante da sociedade planetária, face os membros das outras espécies não humanas e o mundo natural como um todo.
Entende-se que na prática ecofilosófica emerge a necessidade do maior equilíbrio espiritual e racional, a criação de instrumentos e novas formas de liberdade e defesa dos princípios de paz perante a casa planetária (ethos). Esse movimento que se propõe dialético e critico busca fazer com que o ser humano ouse saber: um conceito tão caro ao iluminismo.
Busca-se, ao mesmo tempo, avançar na consolidação de conceitos da vida natural e racional, porquanto novos e reveladores, e que possam rever caminhos outrora recebidos como estabelecidos e corretos, mas que não respondem ao desafio de uma sociedade pós-industrial, com todos os problemas e colapsos que produz.
Essa proposta emerge face a realidade e desafios existenciais atuais, presente uma forma de vida global atual e uma possível concepção futura de uma vida material e espiritualmente sadia, voltada para a realização do bem como princípio nuclear.
Nesse caminho reflexivo e de ação concreta impende o resgate de valores e sabedorias antigas ou mesmo esquecidas. Fazendo-se vital a necessidade de uma nova forma de ver a natureza (phisis), de repensar as regras e os direitos (nómos) e perpetuar o conhecimento em discursos e conceitos reveladores (lógos).
Como projeto intelectual e teórico coletivo essa perspectiva não tem autoria concreta. Trata-se de proposta recolhida e presente nos estudos e práticas de vários profissionais e pensadores. Deverá ser revelada como ente sociocultural e sedimentada ante a produção desses caminhos já identificados.
Aquele que é considerado o criador da filosofia ambiental, Henryk Sklolimowski, dá início a seu livro A filosofia viva, lembrando Albert Schweitzer, que questionava com muita lucidez até que ponto a sobrevivência e a prosperidade de uma civilização dependia de uma correta visão de mundo (weltanchauung).
A RACIONALIDADE INSTRUMENTAL E A ECOLOGIA PLANETÁRIA
A Wikipédia tornou pública seu conceito de racionalidade instrumental buscando um resumo, de bastante objetividade, e aqui transcrevemos um pequeno excerto com grifos nossos: “a razão instrumental nasce quando o sujeito do conhecimento toma a decisão de que conhecer é dominar e controlar a Natureza e os seres humanos. A razão ocidental, caracterizada pela sua elaboração dos meios para obtenção dos fins, se hipertrofia em sua função de tratamentos dos meios, e não na reflexão objetiva dos fins”. Aqui estão postos outros conceitos como sujeito do conhecimento, razão ocidental, meios para obtenção e reflexão objetiva dos fins.
Tomamos socorro ao conceito de razão instrumental, da Escola de Frankfurt, uma vez que a construção de uma teoria crítica da sociedade buscava fazer pensar as contradições do modo de ser e pensar do homem moderno, após o advento do iluminismo, enquanto sempre há uma produção de unanimidade em torno da razão tida como fundamental. A teoria crítica buscar ver o desenvolvimento humano mais livre da exploração de uma classe sobre a outra ou de um grupo sobre outros.
A racionalidade instrumental ocorria em oposição a uma razão crítica e esclarecedora, constitui numa produção social e cultural que se instala sob o manto do objetivo de um verdadeiro progresso, mas revela-se destruidora da realidade e fator impeditivo de produção de uma razão concreta e substancial.
Numa das obras fundadoras da Teoria Crítica, Adorno e Horkheimer expõem que o poder econômico funciona anulando o indivíduo. Ao mesmo tempo esse “poder econômico eleva o poder da sociedade sobre a natureza a um nível jamais imaginado”. A contradição nasceria enquanto o sistema funciona de modo que, ao mesmo anulado e desaparecendo do aparelho a que serve, o indivíduo se vê, ao mesmo tempo, melhor do que nunca provido por ele. Emerge daí uma razão instrumental posta como solidificada e correta com produção de sistemas cuja composição perscruta de meios eleitos para resultar no fim proposto.
Quando o filósofo François Chatelet foi convidado a fazer uma série de entrevistas com Émile Noel sobre a história da razão – que acabou redundando na publicação de um livro básico em qualquer educação, chamado Une historie de la raisson: entretiens avec Émile Noel – ele sorriu ao pedido do entrevistador. O que ocorria era que Chatelet evitava fazer uma história geral da racionalidade, explicando que há várias formas de racionalidade pelo mundo. Mas o convite foi aceito de que forma que as entrevistas (em oito encontros em 1979)
CHANGEUX, Jean-Pierre. Fundamentos naturais da ética. Lisboa: Instituto Piaget, 1996, 320 p.
MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. 4ª ed. Porto Alegre: Sulina, 2003.
JAMIESON, Dale. Ética e meio ambiente: uma introdução. São Paulo: SENAC, 2010.
THOREAU, Henry D. Walden: ou a vida nos bosques. São Paulo: Aquariana, 2001.

Leave a Reply